O growth mindset para crianças, também chamado de mentalidade de crescimento, parte da ideia de que determinadas habilidades podem ser desenvolvidas por meio de aprendizagem, prática, boas estratégias, orientação e persistência.
Para pais e responsáveis, essa abordagem pode ser útil principalmente na maneira de conversar sobre erros, dificuldades e desafios.
Em vez de uma criança concluir “eu não consigo fazer isso”, podemos ajudá-la a desenvolver uma pergunta diferente:
“O que ainda preciso aprender para conseguir?”
Essa mudança de perspectiva não significa acreditar que qualquer pessoa conseguirá qualquer coisa apenas porque se esforçou. Significa ensinar que uma dificuldade atual não precisa ser considerada uma definição permanente da capacidade da criança.
O que é growth mindset?
O conceito ficou conhecido principalmente a partir dos trabalhos da psicóloga Carol Dweck, professora da Universidade Stanford, que pesquisa motivação, desenvolvimento e as crenças que as pessoas formam sobre suas próprias capacidades.
De maneira simplificada, a teoria diferencia duas formas de interpretar habilidades.
Na chamada mentalidade fixa, a pessoa tende a enxergar características como inteligência ou talento como relativamente imutáveis. Pensamentos como “não sou bom em matemática”, “não tenho talento para desenho” ou “isso não é para mim” representam bem essa postura.
Já na mentalidade de crescimento, existe maior abertura para considerar que determinadas habilidades podem mudar com aprendizagem, estratégias, prática e ajuda adequada.
Por isso, existe uma palavra pequena que pode fazer diferença:
ainda.
Compare:
“Eu não sei fazer isso.”
com:
“Eu ainda não sei fazer isso.”
A dificuldade continua existindo. O que muda é a interpretação de que ela precisa necessariamente permanecer para sempre.
Growth mindset não significa apenas “esforce-se mais”
Esse é um dos pontos mais importantes deste artigo.
Mentalidade de crescimento não significa simplesmente dizer à criança para insistir indefinidamente.
Se ela utiliza repetidamente uma estratégia que não funciona, aumentar apenas o esforço pode gerar ainda mais frustração.
Carol Dweck chama atenção para aquilo que costuma ser chamado de processo de aprendizagem: esforço, estratégias, concentração, persistência, procura por ajuda e disposição para mudar a abordagem quando necessário. Stanford também destaca essa diferença ao explicar os trabalhos da pesquisadora sobre elogios e motivação infantil.
Portanto, em vez de dizer apenas:
“Tente de novo.”
pode ser mais útil perguntar:
“O que poderíamos tentar de maneira diferente?”
A mensagem passa a ser que persistir também envolve aprender a mudar de estratégia.
Por que essa abordagem pode ser importante durante a infância?
Durante a infância, crianças começam a formar interpretações sobre suas capacidades.
Elas percebem o que conseguem fazer com facilidade, observam outras crianças e recebem comentários de pais, professores e familiares.
Essas experiências podem influenciar a maneira como encaram futuros desafios.
Uma criança que começa a acreditar que “não nasceu para matemática”, por exemplo, pode evitar atividades matemáticas antes mesmo de tentar desenvolvê-las.
Por outro lado, ensinar que dificuldades podem ser investigadas, trabalhadas e enfrentadas com estratégias diferentes ajuda a evitar que um resultado momentâneo se transforme rapidamente em um rótulo.
Isso não garante desempenho acadêmico superior. Trata-se de criar uma maneira mais construtiva de interpretar a própria aprendizagem.
Cuidado ao elogiar apenas a inteligência
Dizer “você é muito inteligente” parece um elogio perfeito.
Entretanto, pesquisas associadas ao trabalho de Dweck sugerem que elogiar constantemente inteligência ou talento pode fazer algumas crianças se preocuparem excessivamente em confirmar essa característica.
Quando surge uma atividade difícil, errar pode começar a significar:
“Talvez eu não seja tão inteligente assim.”
Dweck defende maior atenção ao chamado elogio ao processo, relacionado à estratégia, concentração, dedicação, persistência e progresso.
Imagine que seu filho conseguiu resolver uma tarefa depois de várias tentativas.
Em vez de dizer apenas:
“Você é muito inteligente!”
você pode dizer:
“Percebi que você tentou duas maneiras diferentes até encontrar uma que funcionasse.”
O segundo comentário ajuda a criança a perceber o que ela fez para chegar ao resultado.
Isso também não significa transformar todo elogio em uma análise pedagógica. Elogios espontâneos fazem parte das relações familiares. O objetivo é apenas não basear toda a valorização da criança em rótulos sobre inteligência ou talento.
Ensine que erros fornecem informações
Errar continua sendo desagradável.
Mentalidade de crescimento não exige que uma criança fique feliz quando erra uma prova, perde uma competição ou não consegue realizar alguma coisa.
O que pode mudar é aquilo que fazemos depois do erro.
Em vez de tratá-lo imediatamente como demonstração de incapacidade, podemos utilizá-lo para investigar o processo.
Pergunte o que aconteceu, qual foi a parte mais difícil, o que ela já conseguiu compreender e o que poderia experimentar da próxima vez.
O objetivo não é eliminar a frustração, mas impedir que ela seja automaticamente transformada em:
“Eu não consigo.”
Como reagir a uma nota baixa
Uma nota ruim pode ser uma situação especialmente útil para colocar essa abordagem em prática.
Em vez de começar apenas com:
“Por que você tirou essa nota?”
experimente:
“Vamos descobrir o que aconteceu?”
Talvez a criança não tenha estudado. Talvez tenha estudado muito, mas utilizado uma estratégia pouco eficiente. Pode ter dificuldade em determinado conteúdo, problemas para interpretar as questões, ansiedade diante da avaliação ou simplesmente cometido erros que podem ser corrigidos.
A nota mostra um resultado.
O objetivo dos pais e professores deveria ser compreender o processo que levou a esse resultado.
Depois disso, pode ser necessário estudar de outra maneira, revisar conteúdos anteriores, pedir ajuda ao professor ou praticar determinadas habilidades.
Ajude a criança a encontrar desafios adequados
Aprender normalmente envolve algum grau de dificuldade.
Se todas as atividades forem extremamente fáceis, existem poucas oportunidades para experimentar esforço, frustração e superação.
Por outro lado, oferecer constantemente tarefas muito além da capacidade atual da criança também pode produzir desânimo.
O ideal é procurar desafios que estejam um pouco além daquilo que ela já domina, mas que possam ser enfrentados com prática ou orientação.
Isso pode acontecer ao aprender a andar de bicicleta, montar um quebra-cabeça mais complexo, ler um livro mais difícil, preparar uma receita, praticar um esporte ou resolver um problema matemático.
Não resolva imediatamente todos os problemas
Pais naturalmente querem ajudar seus filhos.
Porém, ajudar não significa necessariamente fornecer a solução imediatamente.
Imagine uma criança tentando montar alguma coisa.
Ela diz:
“Não consigo.”
Antes de fazer por ela, pergunte:
“Qual parte está mais difícil?”
Depois:
“O que você acha que poderia tentar?”
Essa pequena pausa dá espaço para raciocínio e experimentação.
Se a criança realmente precisar de ajuda, o adulto pode orientar, demonstrar uma etapa ou oferecer pistas.
O objetivo não é deixá-la sozinha diante de uma dificuldade. É evitar que ela aprenda que, diante de qualquer problema, outra pessoa imediatamente assumirá a tarefa.
Mostre que adultos também estão aprendendo
Crianças observam aquilo que os adultos fazem, não apenas aquilo que dizem.
Quando você cometer um erro, pode reconhecer:
“Fiz isso errado. Preciso descobrir onde errei.”
Quando não souber alguma coisa:
“Não sei. Vamos pesquisar?”
Quando uma primeira tentativa não funcionar:
“Esse jeito não funcionou. Vou tentar outro.”
Essas situações mostram que não saber algo não é motivo de vergonha.
Adultos também aprendem, mudam de estratégia e pedem ajuda.
Evite transformar características atuais em rótulos permanentes
Alguns rótulos parecem positivos:
“Ele é o inteligente da família.”
“Ela nasceu para matemática.”
Outros são claramente limitadores:
“Ele não leva jeito para esportes.”
“Ela é péssima em desenho.”
O problema é transformar uma habilidade ou dificuldade atual em uma identidade permanente.
Em vez de:
“Você é um gênio em matemática.”
pode ser mais útil:
“Você encontrou uma ótima maneira de resolver esse problema.”
E no lugar de:
“Você não leva jeito para desenho.”
experimente:
“Essa técnica ainda está difícil. Talvez seja preciso praticar de outra maneira.”
Isso descreve melhor a situação real sem determinar antecipadamente aquilo que a criança poderá ou não aprender no futuro.
Incentive curiosidade e perguntas
Uma criança curiosa não precisa encontrar imediatamente todas as respostas.
Quando ela perguntar algo que você também não sabe, uma excelente resposta pode ser:
“Não sei. Vamos descobrir?”
Isso transforma desconhecimento em investigação.
Livros, experiências simples, museus, jogos, conversas, natureza e pesquisas acompanhadas podem criar oportunidades de aprendizagem.
O mais importante é preservar a ideia de que fazer perguntas não é demonstração de ignorância.
É parte do processo de aprender.
Ensine a receber orientação sem confundir correção com fracasso
Receber uma correção pode ser desconfortável.
Por isso, crianças precisam aprender gradualmente que ouvir:
“Esta parte precisa melhorar.”
não significa:
“Você é ruim nisso.”
Os próprios adultos têm responsabilidade sobre a forma de corrigir.
Existe uma grande diferença entre:
“Vamos revisar essa parte porque existem alguns erros.”
e:
“Você nunca faz nada direito.”
A primeira frase identifica um problema.
A segunda transforma o problema em julgamento sobre a pessoa.
Uma orientação útil mostra, sempre que possível, o que precisa melhorar e qual pode ser o próximo passo.
O que growth mindset não significa
Para evitar uma interpretação simplista, vale deixar alguns limites claros.
Mentalidade de crescimento não significa que todas as pessoas possuem exatamente as mesmas capacidades, que qualquer objetivo pode ser alcançado apenas com esforço ou que dificuldades reais devem ser ignoradas.
Também não significa elogiar qualquer tentativa independentemente do resultado.
Uma criança pode ter se esforçado muito e ainda precisar mudar completamente a estratégia.
Pode também precisar de apoio pedagógico especializado, adaptações ou mais tempo.
Outra interpretação equivocada seria responsabilizar a criança por qualquer dificuldade escolar:
“Se você não conseguiu, é porque não teve mentalidade de crescimento.”
Isso distorce completamente a proposta.
Aprendizagem depende também da qualidade do ensino, recursos disponíveis, contexto familiar, oportunidades e inúmeras outras condições.
Growth mindset melhora as notas?
Aqui é necessário separar uma ideia educacional interessante de uma promessa que a ciência não sustenta de forma consistente.
Intervenções destinadas a ensinar growth mindset foram estudadas em diferentes contextos, mas os resultados sobre desempenho acadêmico são modestos e controversos.
Uma grande revisão e meta-análise publicada no Psychological Bulletin avaliou 63 estudos, com quase 98 mil participantes. O efeito médio encontrado sobre desempenho acadêmico foi muito pequeno e deixou de ser significativo em algumas análises que consideraram qualidade metodológica e possível viés de publicação.
Outra meta-análise publicada no mesmo periódico encontrou heterogeneidade nos resultados e discutiu circunstâncias nas quais determinadas intervenções poderiam produzir benefícios.
Mais recentemente, uma revisão de 2025 examinou 24 estudos randomizados com crianças em idade escolar. Os trabalhos considerados metodologicamente mais fortes apresentaram efeitos nulos ou muito pequenos sobre desempenho acadêmico.
Portanto, não seria correto prometer que ensinar mentalidade de crescimento fará automaticamente uma criança obter notas melhores.
Seu uso mais razoável no cotidiano familiar é como uma maneira de conversar sobre aprendizagem, erros, estratégias, progresso e dificuldades sem transformar resultados momentâneos em sentenças permanentes sobre a capacidade da criança.
Como trabalhar a mentalidade de crescimento em casa
Não é necessário transformar a rotina familiar em um programa de treinamento.
Algumas mudanças simples de linguagem já ajudam a aplicar a ideia:
- Troque “você não consegue” por “você ainda está aprendendo”.
- Pergunte “qual estratégia você tentou?” em vez de apenas “você se esforçou?”.
- Reconheça progresso concreto, não somente resultados finais.
- Ajude a criança a descobrir o erro, em vez de simplesmente apresentar a resposta.
- Mostre que adultos também erram e aprendem.
- Incentive pedidos de ajuda quando uma dificuldade ultrapassar aquilo que a criança consegue resolver sozinha.
- Evite comparar irmãos, colegas ou outras crianças.
- Não transforme notas, talentos ou dificuldades em identidade.
Essas atitudes não garantem determinado resultado escolar.
Elas ajudam a criar um ambiente em que aprender e errar podem fazer parte do mesmo processo.
Growth mindset e disciplina positiva são a mesma coisa?
Não.
Growth mindset e disciplina positiva são conceitos diferentes.
A mentalidade de crescimento está ligada principalmente às crenças sobre aprendizagem e desenvolvimento das capacidades.
Já a disciplina positiva é uma abordagem educacional associada a temas como limites, responsabilidade, cooperação, respeito e desenvolvimento de habilidades sociais.
Apesar das diferenças, existem alguns pontos de aproximação.
Ambas podem incentivar adultos a evitar rótulos permanentes, oferecer orientação construtiva e considerar que crianças estão desenvolvendo habilidades ao longo do tempo.
Por isso, pais interessados no assunto podem encontrar valor em estudar as duas abordagens separadamente.
Sugestão de leitura: Disciplina Positiva
Para quem deseja aprofundar temas relacionados à educação dos filhos, responsabilidade, autonomia, cooperação e maneiras construtivas de estabelecer limites, uma leitura complementar é “Disciplina Positiva”, de Jane Nelsen.
O livro é apresentado em português como um guia dirigido a pais e professores interessados em ajudar crianças a desenvolver autodisciplina, responsabilidade, cooperação e habilidades para resolução de problemas.
Embora a obra não seja um livro sobre growth mindset, seus temas dialogam com algumas questões tratadas neste artigo, principalmente a maneira como adultos orientam crianças diante de dificuldades e comportamentos que ainda estão em desenvolvimento.
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Uma mudança simples na maneira de responder
Talvez o principal benefício prático desse conceito esteja menos em ensinar a expressão inglesa growth mindset à criança e mais em mudar algumas conversas cotidianas.
Quando seu filho disser:
“Eu não consigo.”
não é necessário responder automaticamente:
“Você consegue qualquer coisa!”
Isso também pode ser irreal.
Uma resposta mais útil seria:
“Você ainda não conseguiu. Vamos descobrir qual é a dificuldade e o que podemos tentar agora.”
Essa frase reconhece o problema sem tratá-lo como definitivo.
Conclusão
Desenvolver uma mentalidade de crescimento nas crianças não significa convencê-las de que conseguirão qualquer coisa apenas porque desejam ou se esforçam.
A proposta é mais equilibrada.
Uma dificuldade atual não precisa ser considerada uma definição permanente da capacidade da criança.
Ela pode aprender, praticar, pedir orientação, descobrir estratégias diferentes e melhorar determinadas habilidades.
Os pais podem contribuir valorizando o processo, evitando rótulos, permitindo que os filhos enfrentem desafios adequados e mostrando, pelo próprio exemplo, que adultos também erram e continuam aprendendo.
A evidência científica não sustenta a promessa de que simplesmente ensinar growth mindset produzirá grandes melhorias acadêmicas.
Ainda assim, o conceito oferece uma reflexão útil para a educação cotidiana:
mais importante do que convencer a criança de que ela já é boa em tudo é ajudá-la a perceber que aprender é um processo.
E, muitas vezes, existe uma grande diferença entre:
“Eu não consigo.”
e:
“Eu ainda não consegui.”
Fontes consultadas
Stanford University — Carol Dweck sobre elogio ao processo e aprendizagem
PubMed — Meta-análise sobre para quem, como e por que intervenções de growth mindset podem funcionar
Review of Education — Revisão de 2025 sobre intervenções de growth mindset em estudantes


